Uma taça de vinho, notas de desejos contidos

Autoria: Ana Lucia Baleeiro (facebook.com/analucia.baleeiro)

Aproveitando que ninguém perguntou, gostaria de discorrer algumas palavras sobre o que está por trás das taças de vinho.


Não milito, não me posiciono politicamente, não opino sobre quem deve sair no BBB. Isso não faz parte de uma alienação, mas de uma opção de viver de forma mais suave, pelo menos, nas redes sociais.


Eu tenho medo do Bolsonaro, eu votei no Bolsonaro, eu tenho antipatia das palestras da Juliette, eu nunca fui desmerecida profissionalmente por ser mulher, fui salva pelo SUS, vivi relacionamentos em que eu fui abusiva e todos os dias tenho sintomas (psicológicos) do Covid-19. Talvez fruto da solidão que as taças de vinho não mostram.


Não discuto política nem religião. Para o cobrador do ônibus, digo que votei no PT. Para o Diretor, digo que votei no Amoedo. Sou budista, mas aceito a oração do evangélico e sempre digo que fé é louvável, não importa pra onde direcionada. É uma forma preguiçosa e covarde de não se indispor em tempos de ódio.


Quando a Maju Coutinho disse: “o choro é livre”, Eu, de fato, chorei. Eu e, pelo menos, mais dez famílias sobreviventes de um comércio; e o choro não foi só livre, como foi doído.


A minha dor não se limita ao meu pequeno universo de questões e as dores que não vivi não me tiraram, felizmente, a empatia. Queria poder salvar o mundo! Aliás, eu já tentei e afirmo: foi exaustivo.


Passo horas imaginando o que posso fazer por alguém. Gostaria de ter condições financeiras e ajudar o pequeno comércio, o amigo do amigo, o conhecido. Minha irmã faz isso e louvo atitudes como esta.


Às pessoas que foram importantes para mim, que fizeram parte da minha vida, fico buscando formas de retribuir. Às vezes, consigo. Às vezes, não. Olho os bolos da Carenin no Ifood e penso:

- Hoje vou comprar para retribuir as muitas memórias afetivas que tenho dela.


Logo, vem a realidade:

- Se eu comprar o bolo, não compro o vinho. Sem mais perguntas.


Quando iniciei minha faculdade de Serviço Social achei que distribuiria comida aos moradores de rua (ações que fiz durante anos e ainda farei). No primeiro dia, disse ao meu colega de classe:

- Silvinho, a gente não vai distribuir pão para os moradores de rua?


E ele me respondeu, rindo:

- Ana, eles não são pombos!


Dia desses, demos risada na aula quando contei isso. Hoje meu maior desejo é concluir minha graduação e intervir de forma humanista e incansável nos direitos de todo e qualquer cidadão. Assunto polêmico, então, me limito a informar que este é o papel de um Assistente Social.


As taças de vinho escondem dores e dissabores, mas procuro validar a alegria que é estar viva em tempo de morte e perdas. Talvez eu consiga, talvez não...


Monitoro-me diariamente, pois tenho histórico de depressão. Tenho muito medo de ser a Ana Lucia de antes, negativa, triste, que desejava a grama verde do vizinho. A grama era de plástico, mas eu adjetivava como viçosa e mais fácil de limpar. Faço terapia e bebo vinho, claro.


No ramo do amor, sempre tive dificuldades e isso não é segredo. Ou o amor não é correspondido ou é platônico ou é impossível. Eu sou a famosa “emocionada”. E como estou sempre na contramão, não desisti. Acho que ainda vou postar aquela foto do beijinho, mesmo que seja no meio de uma briga (contém ironia).


São tantos os pensamentos, divagações, poemas não concluídos, poesias baratas, cartas não enviadas, telefonemas sabotados por uma mensagem de texto, livros encostados e trocados por "Quem matou Sara?"; pesquisas no Google de remoção de tatuagem, como ser feliz no amor e emagreça comendo, que discorreria infinita e tediosamente.


Assim como muitos, estou vivendo o março mais difícil da minha vida. Eu queria poder abraçar o Padre Fabio de Melo, queria poder abraçar minha amiga que perdeu o irmão, queria poder abraçar todas as pessoas que estão sofrendo com a perda dos seus.


Eu queria ter uma máquina de abraços solidários e queria distribuir Band-aid para todos os corações quebrados.


Enquanto não posso, desejo vacina, comida na mesa, armários e geladeiras abastecidos, empregos, dignidade e, claro, taças de vinho.


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