Fábula da formiga e da cigarra

Atemporal, esta fábula já foi contada de inúmeras formas.

Aqui, uma tradução livre da versão poema de La Fontaine).



Tendo a cigarra em cantigas,

Passado a cantar pelo verão,

Achou-se agora em penúria,

Chegada a rigorosa estação.


Não lhe restando migalhas

Que trincasse, a tagarela

Foi valer-se da formiga,

Que morava perto dela.


Rogou que lhe emprestasse,

Pois tinha ela riqueza e brilho,

Algum grão com que manter-se,

Até quando voltar o aceso estio.


- "Amiga", diz a cigarra,

- "Prometo, à fé de animal,

Pagar-vos antes de agosto

Com os juros e o principal."


Formiga não pede nem dá,

Trabalha duro, por isso junta.

- "No verão, em que lidavas?"

À cigarra pedinte ela pergunta.


- "Eu cantava noite e dia,

aproveitava a toda a hora."

- "Oh! bravo!", torna a formiga.

- "Cantavas? Pois dance. agora!"

---


Guardadas as devidas proporções, seja por fábula, seja característica de vida, tanto a cigarra quanto a formiga trazem uma metáfora sobre a natureza humana. ---

A cigarra é reconhecida logo pelo seu zumbido (canto), que é próprio do instinto de sobrevivência. Canta para os males espantar, canta para acasalar, canta para anunciar mudanças, canta para alegrar,

canta para entristecer. Biologicamante falando, a cigarra é uma espécie de metamorfose incompleta, isto é, não chega a seu melhor estado de transformação. Ainda assim, cumpre sua missão. Cada indivíduo cigarra possui em seu canto uma identidade própria, no qual entre si faz diferenciar o macho da fêmea, além de conter lá seus modos de atração. Do nascer ao casulo, do casulo ao hospedeiro, do hospedeiro-casa ao crescer das asas, cumpre a vida de dores, riscos e as buscas pela tão esperada alegria do próximo verão. --- A formiga é de pronto reconhecida pela força no trabalho incansável e pela persistência na jornada. Viver em sociedade, construindo, estocando e compartilhando resultados de trabalho com seus semelhantes é um ponto forte. Na mesma medida em que há pontos fracos: se dividem em castas, as operárias morrem para salvar as superiores, se uma for contaminada,

poderá comprometer toda uma colônia. Guerreira por natureza, quando se vê solitária, não esmorece. Carrega um peso maior que seu próprio corpo, mas abe que ao findar a jornada, em recompensa pelo esforço, foco e consistência, terá alimento e suprirá as necessidades. É com uma grande folha sobre as costas que vai seguindo sua luta, podendo usá-la para se proteger do sol, para se cobrir na chuva ou usá-la para se projetar no vento.

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